Imagem capa - O meu parto // A chegada da Picu por Amanda Franco
Parto Hospitalar

O meu parto // A chegada da Picu

{QUANDO ACABA O PUERPÉRIO?}



"Você ainda amamenta?", ela perguntou com a voz calma, me olhando nos olhos, enquanto sua bebê engatinhava pelo chão da sala orgulhosa de suas descobertas. A turma cheia virou o rosto em minha direção à espera de uma resposta. "Sim, amamento", eu disse. Olharam de volta para ela. "Então, não importa a idade do seu bebê, você ainda está no puerpério". 


A sala foi tomada pelo silêncio por alguns segundos. Acredito que todas refletimos ligeiramente sobre o que foi dito, enquanto o próximo slide aparecia na tela.


Aquele puerpério complicado, solitário, exaustivo e cheio de intempéries ainda estava em mim. Caminhávamos juntos, lado a lado. Era o que ela estava me dizendo. Logo ele, que eu queria tanto deixar para trás, esquecer, fingir que nunca existiu. 


Como eu não pretendia parar de amamentar (o que faço até hoje), a solução para o meu problema era aprender a conviver com ele. Aceitá-lo e encontrar uma maneira de ressignificá-lo. Isso mudou completamente a minha vida. Não vivo um conto de fadas, mas passei por transformações necessárias, que trouxeram grandes mudanças.


Talvez ela não se dê conta disso, mas esse diálogo eu tive com a Roniara Nunes, durante o 29º Curso de Doulas da Matriusca. Entende por que devemos ponderar o que dizemos ao outro? As palavras podem marcar a vida de uma pessoa para sempre, positiva ou negativamente.


Eu estou falando sobre isso para que eu possa introduzir os pontos seguintes.



{O REGISTRO DO MEU PARTO}



Em algumas semanas a Picu completará 3 anos. Eu decidi sentar e ver todas as imagens do parto dela. Até então, havia assistido alguns trechos de vídeos e visto uma foto ou outra. Nunca o material todo. Em determinado momento, não conseguia mais olhar para tudo aquilo e abandonava o processo.


Eu estava decidida a lidar com essa questão. Com meu parto, meu puerpério e toda a falta de apoio e de controle sobre toda e qualquer situação durante esses dois períodos.


O marido chegou em casa no meio desse processo. Não o ouvi. Abriu a porta do escritório e correu na minha direção. Olhos inchados, nariz vermelho, meleca e lágrima pra todo lado. Viu então a tela do computador. "Por que você está vendo isso, amor? Isso te faz tão mal...". "Porque eu preciso, vai lá que depois a gente conversa", eu respondi segurando firme  a mão dele sem deixá-lo ir. Ficou sentado ao meu lado.


Eu assisti tudo de novo. Revi as fotos da gestação. Resgatei meu plano de parto e memórias profundas.


Decidi fazer algo com tudo aquilo. Transformar aquela bagunça em algo produtivo, significativo e que tivesse a minha voz.



{ARREPENDIMENTOS}



Há 4 anos doulas e fotógrafas de parto ainda estavam conquistando seu espaço no mercado, provando o valor da sua contribuição durante e após o nascimento. Algumas equipes não indicavam a presença dessas profissionais durante o TP ou apoiavam a ideia de que quanto menor o número de pessoas no ambiente do parto melhor. O que é compreensível, mas também relativo, já que depende da personalidade e preparação da mulher bem como das  habilidades da profissional. 


Com isso quero dizer que: não tive doula e fotógrafa no meu parto e sinto muito quanto a isso. Não posso mudar o que passou. Então, não adianta me perder no passado. Mas, posso compartilhar a minha experiência com mulheres que estão em uma situação semelhante à que passei.



{PARTO SEM DOULA}



Como doula e educadora perinatal, eu tenho plena certeza de que meu plano B não teria sido tão leviano. 


Convicta de que nada daria errado, já que minha gravidez era de risco habitual e minha bebê gozava de saúde plena, eu e meu marido estávamos certos de que nosso parto aconteceria em casa, assistido por uma equipe competente, sem a necessidade de um plano B elaborado conforme planejado.Dessa forma, nosso plano B era sucinto e pouco atencioso: plantonista da maternidade. Tomamos essa decisão sem fazer qualquer pesquisa e sem nem sequer estarmos certos de que era o que realmente queríamos.


Quando chegamos sozinhos na maternidade, com bolsa rota há 72 horas e 42 semanas e 3 dias de gestação (leia sobre gravidez prolongada aqui), instaurou-se um circo. Eu era a atração principal. Eu era a "é você a gestante de 72h de bolsa rota?" ou a "olha, ela que está esperando o bebê velho". 


Os 20 minutos que passei sozinha na sala de triagem, aguardando a enfermeira acionar a médica imediatamente porque meu caso era urgente e fenomenal (enquanto tinha mulher urrando de dor na sala de espera) foram emocionalmente dolorosos. Eu queria uma doula ali. Eu queria alguém que me olhasse com compaixão e que me dissesse que tudo ficaria bem e que até então eu havia sido bem assistida e não havia nada de errado comigo ou minha bebê.


Quando entramos no consultório e a médica falou que ia fazer um toque eu disse: "estou com a bolsa rota, é seguro fazer toque?". Ela respondeu: "o protocolo aqui é esse". Eu olhei para o meu marido e vi dúvida em seu olhar. Não sabíamos o que fazer. Esqueci de tudo que havia estudado, estava confusa. Eu queria olhar para a minha doula. Mas, eu não tinha uma.


Fui encaminhada para a sala de exames. Bebê e mãe com ótimo batimento cardíaco, líquido amniótico abundante,  movimentação normal. Voltamos então para a sala da obstetra, que disse que cancelaria a cirurgia de outra paciente e faria a minha, porque eu era uma emergência. 


Eu disse que faria o que fosse seguro e seguiria seu conselho, mas queria saber se era possível tentar uma indução. Ela mencionou o protocolo novamente e disse que eu poderia tentar outro hospital, mas que dificilmente teriam uma conduta diferente e que talvez o bebê não ficasse tão bem até lá. Nessa hora, eu desabei. Chorei. Chorei sem parar. Ela se assustou, pediu que chamassem meu marido. Eu chorava compulsivamente.



{PARTO SEM FOTÓGRAFA}



Demorou um pouco para que a minha cirurgia de extrema emergência fosse realizada. Nós precisamos preencher alguns formulários, responder perguntas, deixar a malinha com roupas em uma sala do outro lado do hospital - fomos caminhando até lá. Depois voltamos e fomos direcionados para uma ante-sala onde me acomodei em uma poltrona bege desconfortável e fria, e tirei da bolsa uma saco com uvas verdes. 


Eu já havia me acalmado. Comecei a comer, as uvas estavam bem doces. O marido não quis. O mistifório deve tê-lo embrulhado o estômago. Uma das enfermeiras disse "você não é a...", e antes que ela terminasse a frase eu a interrompi com a voz monótona, quase embriagada: "bolsa rota, 72 horas, 42 semanas, sim, sim, sou eu...". 


Nós rimos. Ela não. "Você não vai para a cirurgia? Tem que ir em jejum!", ela disse sem me olhar. "Ué, não é de emergência? Eu não estou em jejum há um tempão", e tasquei duas uvas na boca. Nunca comi com tanto gosto. Estava me sentindo tão fraca, tão pequena, indefesa. Comer aquelas uvas foi de um simbolismo tremendo para mim. Como se eu tivesse alguma dignidade agora ou algum controle sobre qualquer coisa.


Sergio ficou lá mexendo no celular. Tenho pra mim que estava procurando no Google os possíveis efeitos colaterais de chegar em uma cesárea super urgente de barriga cheia.


Eu queria muito essas imagens. Queria me ver triunfante abocanhando aquele par de uvas. Queria ter certeza de que eu sorri naquele dia. Mas, eu não tenho nenhuma fotografia que me diga isso. Eu não tinha uma fotógrafa que sabiamente captasse a importância daquele momento e registrasse detalhadamente a minha tímida alegria.


Até hoje quando entro nesse hospital para fotografar um parto olho para essa poltrona e para o balcão da enfermeira com um sorriso bobo.



{COMPARTILHANDO COM O MUNDO}



Eu reuní algumas fotos e alguns takes. Precisei tirar outros tantos que não me fizeram bem e não possuíam propósito. 


Contei uma história com o material que selecionei. Uma história para mim e para ela, uma história sobre nós três. Uma história para sempre sobre a sua chegada aqui nesse mundão.


Os vídeos estão lindos porque somos nós, é nossa vida, tem nosso amor, nossa Picu. Estão tremidos, tortos e desfocados também, porque não foram feitos por um profissional. Mas, tem o que preciso.


É a primeira vez que mostro esse material para alguém. Meus pais nunca viram. Meu marido viu comigo há poucas semanas. E ainda assim, estou dividindo com você, portanto, trate com zelo. Com respeito, com carinho. Cuide bem dessas imagens e dessa história. Compartilhe com quem você acha que precisa ter contato com essa narrativa. Abrace quem precisa de abraço. Dê espaço a quem precisa de espaço.


Assista com som:


Beijo no coração e até breve!


FOTO DA CAPA: FLÁVIA RUBIO