Imagem capa - Tocar a vagina durante o parto é saudável? por Amanda Franco
Batendo Papo

Tocar a vagina durante o parto é saudável?

Há algumas semanas, o Portal Hora Dourada - que reúne fotógrafas de partos do Brasil todo, publicou um registro que fiz durante o parto da Clara. A bolsa acabara de se romper, as contrações estavam intensas e cada vez mais próximas e longas. Alguém sugeriu que Clara tocasse sua vagina para sentir o bebê. O pequeno Martim já estava quase entre nós. Faltava muito pouco para que ela o pegasse nos braços, para que ela sentisse - finalmente, seu cheiro.





Nesse mesmo post, Thiago se preocupou com possíveis contaminações e nos advertiu quanto ao toque. 





Apesar de eu ter respondido ao Thiago lá no post, achei bastante importante trazer essa reflexão para esse espaço e contar uma história antiga, que aconteceu há quase dois séculos, e que acho que foi a fonte de sua confusão.


Antes de falar sobre história, gostaria - ainda, de lembrar que é para a mão, seios e braços de sua mãe que o bebê vai ao nascer. Dessa forma, evitar o toque materno antes do nascimento não parece um procedimento coeso com o que acontecerá logo em seguida.


Tendo dito isso, vamos aos fatos (adoro contar essa história!):


Ignaz Semmelweis, um médico que se formou em Viena no ano de 1844 começou a trabalhar como assistente de um professor na Primeira Maternidade do Hospital Geral de Viena.


Agora, veja bem, nessa maternidade a cada 100 mulheres que pariam seus bebês, 13 delas morriam. Ele ficou chocado. E não é para menos, não é mesmo? Mais de 10% das mulheres morriam após o parto em decorrência de uma doença nomeada à época de febre puerperal.

Existiam várias teorias a respeito da febre do pós-parto, mas nenhuma delas se comprovava cientificamente.

Havia uma segunda maternidade nessa história, de nome não muito original: Segunda Maternidade do Hospital Geral de Viena. Ignaz notou que morriam muito mais mulheres após o parto na Primeira Maternidade em comparação a Segunda.

Só havia uma diferença entre elas: na primeira, trabalhavam os que estudavam medicina. Na segunda, trabalhavam os que faziam um curso só para realizar partos.

Ignaz, que era um moço esperto, pesquisou as possíveis causas da doença, mas não encontrou uma resposta. O mistério continuava. Até que, em 1847, Ignaz perdeu um amigo para a febre pós-parto, Jakob Kolletschka. Acontece que Jacob se machucou enquanto examinava um cadáver e foi contaminado.

Tan-dan! (música breve de suspense)

Ignaz notou então que os médicos estudavam os cadáveres e em seguida atendiam gestantes ou mulheres em trabalho de parto, pasmem: sem lavar as mãos! Os médicos estavam contaminando as mulheres.

Na Segunda Maternidade o número de mortes era menor, porque os profissionais dessa não examinavam cadáveres. Logo, a contaminação era repassada as mulheres grávidas ou em pleno trabalho de parto.

Ignaz instruiu que os médicos e estudantes desinfetassem as mãos com uma solução de hipoclorito de cálcio antes de examinar as mulheres grávidas. Os resultados foram incríveis. O número de mortes caiu muito. Documentos apontam que em abril daquele ano, de cada 100 mulheres que davam à luz, 18 morriam. No fim do ano - após as recomendações de Ignaz, esse número caiu para menos de 1.

Acredito que Thiago tenha se equivocado ao trazer para a mão das mulheres a doença contida nas mãos dos médicos.


Contei essa história triste, porém com final feliz e promissor às gerações seguintes de mulheres grávidas, para dizer: mulheres, toque as suas vaginas durante o trabalho de parto! Tocar a vagina durante o trabalho de parto pode ser um sopro de ânimo. Sentir seu bebê mais perto de você e saber que vocês se reconhecerão em alguns minutos é transformador, um sentimento magnífico para a maioria de nós.


Bom, é isso! Beijo grande e até a próxima.

Amanda Franco.




Fontes e Referências:


Oliver Wendell Holmes (1809–1894) and Ignaz Philipp Semmelweis (1818–1865): Preventing the Transmission of Puerperal Fever: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2866610/


Link para o post original do Portal Hora Dourada: https://www.facebook.com/portalhoradourada/posts/1606636016060759