Imagem capa - Ei, moça: sua vagina é normal! por Amanda Franco
Batendo Papo

Ei, moça: sua vagina é normal!

Eu amo quando homens e mulheres que visitam minha casa encaram pensativos esse mural. 


Talvez estejam tentando se identificar ou identificar suas parcerias. Talvez estejam só refletindo sobre a diversidade em si. Mas, a verdade é que eu adoro vê-los parados lá, ao lado do lavabo, fitando a ilustração.


Muitas de nós se constrangem ao falar de suas próprias vaginas. Raramente discutimos sobre cor, formado, odor, quantidade de pelos ou o tamanho delas.


A experiência feminina com a genitália é muito diferente da masculina. A nudez é  quase norma entre meninos. Desde pequenos eles encaram e exploram seu órgão sexual. No banheiro deles, o mictório é aberto. Urinam lado a lado. No das meninas, isso acontece em espaços privados, com portas e trancas. 


Ainda na escola, o vestiário da aula de educação física dos meninos comumente possui chuveiros coletivos. Tomam banho juntos, se olham. Se comparam. Aprendem desde cedo que são diferentes entre si e que está tudo bem ser assim. Nossos vestiários possuem boxes, não nos vemos. Não temos parâmetros, não nos comparamos. Nos resta, então, a única opção: comparar nossos corpos e partes íntimas com fotos, imagens na TV, trechos de filmes, onde raramente vemos uma vagina. E quando vemos, aparecem bem depiladas e padronizadas.


Durante a minha infância, as meninas eram desencorajadas a tocar “lá embaixo”. Enquanto os meninos - mesmo sem fins recreativos, tocam seus pênis todos os dias ao urinar (já pensaram nisso?).


Eles se conhecem e se sentem confortáveis com suas formas. Nós ainda estamos nos conhecendo... Estamos - só agora, aprendendo que somos diferentes umas das outras e que é absolutamente normal e aceitável ser assim. 



Fotografei um parto certa vez, um dos mais longos até hoje, que me marcou bastante. A mulher queria ficar de calcinha. E quando precisava ser examinada de alguma forma, mesmo com dificuldades para caminhar por conta das contrações, preferia ir até seu quarto e fechar a porta.


Após o nascimento ela precisou de sutura. Teve uma leve laceração, mas era preciso dar um ponto no local. Ela não queria. Certificou-se de que era mesmo necessário suturar. Mas, não havia jeito, era preciso cessar o sangramento. Uma das enfermeiras foi até a sala buscar o material, enquanto a outra após examinar o bebê, o vestia.


Eu fechei a porta do quarto e aproveitei que estávamos sós. Segurei sua mão e disse: "nossas vaginas são diferentes. Todas elas. Nenhuma é igual a outra. E está tudo bem. Eu não vi a sua, nem você viu a minha, mas tenho certeza de que não são iguais. Você é linda, seu corpo maravilhoso acabou de fazer nascer um outro ser e estamos todas incrivelmente admiradas com a sua capacidade de gestar e parir. Seus medos são respeitados e acolhidos, mas são só seus. Não há julgamento aqui".


Nossa conversa durou menos de um minuto. A enfermeira logo voltou. Eu segui meu coração e senti que havia espaço entre nós para aquelas palavras. Nos conhecíamos bem e tínhamos intimidade para isso.


Algumas semanas depois, ela disse que talvez se tivéssemos tido aquele diálogo um pouco antes, o trabalho de parto talvez tivesse corrido de forma mais rápida e leve para ela. Ela disse que durante vários momentos, quando sentia que a chegada do seu bebê estava mais próxima, a imagem dela de pernas abertas sendo encarada de frente por várias pessoas (equipe e marido) a trazia de volta e desconectava-a completamente do seu processo.


De fato, olhando para trás, eu consigo enxergar essa desconexão repetitiva. As contrações ritimadas se espaçavam, os olhos se abriam e ela voltava para nós. Isso aconteceu mesmo algumas vezes.


Apesar de não citar seu nome, conversamos sobre a possibilidade de eu usar seu caso para ilustrar esse texto. Essa mulher que tanto admiro disse: “eu quero é mais que todas as mulheres saibam que suas vaginas são perfeitas e que nenhuma delas passe pelo que eu passei em um momento que deveria ser de profunda paz e contemplação” (mulher sábia! Te quero tão bem, minha amiga...).


Eu espero que essa reflexão se desdobre, se multiplique e dê origem a muitas outras. E que nós sejamos capazes de nos sentir bem com nossas vaginas ao ponto de parir livremente, desligadas de julgamento, cientes de que foi esse magnífico órgão que deu início ao nosso processo de gestar e que - na maioria dos casos, é através dele que vamos conhecer aquela vida preciosa que morou por tanto tempo dentro de nós.


Um viva ao nosso magnífico corpo e às nossas absolutamente normais vaginas!


Beijo grande e até a próxima!

Amanda Franco.




A arte não é minha. Eu só pintei. Adoraria saber quem é a autora (ou autor). Se alguém conhecer a autoria, me passa aqui nos comentários?